quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Metades

Esse não é um texto sobre ações afirmativas ou sobre apropriação cultural. Questões que não domino e que não podem ser debatidas sob o prisma da individualidade.
É apenas um breve manifesto sobre parte da MINHA construção indenitária.


Metade de mim é árabe e outra metade não.
Metade da metade que não é árabe, é afrodescendente e a outra metade dessa metade tem duas metades, uma indígena e outra branca.

Minha metade árabe se conhece, sabe sua história, sua língua, aprendeu sua dança, se exibe no nome, se mostra nos hábitos e é reconhecida pelas manias.
Dessa metade todos tem orgulho, todos deixam ser, aplaudem os modos e querem saber dos causos.
Sabem até seus “podres”, mas nunca se esquecem das virtudes.
Vira rua, dobra esquina, essa metade sempre se enxerga no espelho das metades dos outros, nos olhos e no caminhar dos “brimos”, que não conseguem esconder seus narizes e nomes.
Se me apresento como libanesa, ninguém abre a boca pra contestar, está escrito em meu nome, grafado em meu sangue.

A metade afrodescendente se reconhece, mesmo sem se conhecer bem.
Sabe de pequenina parte da sua história, aprendeu suas lendas, suas lutas, se exibe nas formas, nos gostos, nos gestos e até nos medos.
Dessa metade não são todos que se orgulham. Não querem saber sua verdade, sua origem ou suas memórias. Negam. Ignoram e atropelam.
Dessa não me deixam pertencer, mesmo estando impressa em minha forma física (mais nos traços e menos na tonalidade da pele).
Se digo que sou negra ou afro descendente, ou fazem piada ou batem o pé pra dizer que não sou, não posso ser, porque minha pele é clara.
Pior que a negativa do direito de me definir como metade do que sou é o que motiva essa negativa. O julgamento de que essa identidade não pode ser minha e que não é o melhor querer para um indivíduo. Algo que não deveria nem ser almejado, quanto mais pleiteado.
Pouco importa se essa é a minha percepção como individuo, ou sem me sinto mais igual aos seus iguais.
O amor que tenho à sua ancestralidade e a identificação com tudo que lhe é inerente também é irrelevante, pois minha pele não é tão escura, e não me encaixo nos critérios do que é admitido como padrão desse grupo.

Metade da metade que não é árabe, é indígena.
Essa eu conheço pouco e reconheço menos. Sua história não me foi contada, e embora possa estar se mostrando em seus costumes, gostos e gestos, não sabe disso.
Guardei algumas lendas e aprendi outros significados com a maior intensidade que pude. Mas não ajudou.
O mundo de fora apaga o que foi deixado e quebra os espelhos.
Dessa nem tiveram a chance de negar autodefinição.
Não conseguiram gerar em meu ser a possibilidade de me apresentar como indígena.

E tem a outra. A metade branca, possivelmente europeia, de algum país que não sei apontar.
Dessa eu sei nada especificamente e tudo genericamente.
Conheço mas não reconheço. 
Vivo em um mundo dominado por ela com o sentimento de que dele não faço parte.
Aprendi sua religião, sua língua, seus costumes e seu pensamento, herdei alguns gostos, gestos e modos.
E mesmo que todos insistam em colocar um espelho na minha cara, eu não enxergo a mulher branca do outro lado.
Seja por assimilação ou por condição.
Mas eu sei bem, que se um dia eu quiser criar um enredo, e sair por aí dizendo que sou portuguesa e branca, muitos irão aceitar.
Minha pele não é tão escura, o panorama histórico não exclui a possiblidade e é algo digno de ser buscado.
Talvez alguns mais críticos e atentos contestem essa “branquitude” em um simples olhar aos meus cabelos, o que poderia ser rapidamente resolvido com um alisamento.

Algumas metades são maiores que outras, são mais fortes e por isso, maiores, mesmo sendo menores.
Não posso ser tudo que sou, só metade.
E não qualquer metade.
Só posso ser a metade que me deixam ser.
Para mim, identidade não é apenas o modelo de apresentação, mas a linha entre apresentação e aceitação.
O que eu digo que sou e o que entendem que sou (autodefinição e identidade atribuída)
Por isso, se um dia eu lhe disser que sou negra e afrodescendente, apenas peço que se não puder ou quiser me enxergar como tal, faça a gentileza de ficar calado.
Não venha me explicar de A a Z, como crítico analítico que não é, o que não posso ser.
E, principalmente, não tente me fazer achar que isso é uma honraria, porque não é.



Identidade: “É a forma dos indivíduos se reconhecerem e de serem reconhecidos,  a maneira como se vêem e são vistos. Assim, aquilo que os outros dizem e esperam dele, passa a fazer parte do que ele acha que é a sua natureza e modelará o seu perfil, a sua forma de ser.” (Elizete Silva Passos

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Sentindo sem sentido

Não sou o que sei 
Nem sei o que sou. Exibindo IMG_6087.JPG
Não sei se falo o que penso 
Ou se penso no que falo. 
Algumas vezes quero o que tenho, 
outras tenho o que não quero. 
Vivo sem conseguir terminar as coisas que invento em segredo. 
Tento sem mostrar que tentei  
e mostro sem fingir que escondi. 
Escrevo coisas sem sentido 
Apenas sentindo o que já não lembro. 
Tenho medo de perder o que consegui ganhar  
E de não ganhar mais o que já não posso perder. 
Suicido sem morrer  
e morro sem ter de viver. 
Nascer é cansativo e morrer não acaba com a exaustão. 
Paz seria não ter de ser o que sou.
Paz seria não ter de ser nada.
Mas viver sem ser é não existir
e existir sem viver é cansar sem porquê. 
Exibindo IMG_6087.JPG

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Eu Sinto

Selfie #nataliabayeh:
O que eu sinto??

Eu apenas tenho sentido.
Sinto meu corpo esquentar quando você se aproxima.
Sinto meu coração acelerar quando escuto a sua voz.
Sinto ciúmes das que passaram por suas mãos.
Sinto vontade de te ligar cada vez vejo seu nome no meu celular.
Sinto meu estômago torcer quando não te sinto ao meu lado.
Eu sinto inveja até da Amy Winehouse, que você tanto idolatra.
Sinto vontade de chorar ao pensar que você não choraria por mim.
Sinto medo, muito medo, de você se cansar ou de nem mesmo se enfeitiçar pelos encantos que tentei te lançar.
Sinto vontade de falar o que sinto e gritar o seu nome.
Sinto, sobretudo, uma imensa vontade de sentir.
Sinto o calor aumentar quando lembro do seu olhar (...).
Sinto você, e principalmente, eu, quando está em mim.
Sinto o que nunca senti.

O que sempre temi sentir.
E o que sempre soube que sentiria.
Quando estou com você o meu verbo é conjugado na primeira pessoa do singular, EU SINTO.
Mas eu queria mesmo poder conjuga-lo na terceira pessoa do plural, NÓS SENTIMOS.
Me sentiria muito honrada se soubesse que você sente metade do que estou sentindo.
Mas sentir já me torna exclusiva, única, e me faz tão bem.
Não consigo parar de escrever.
Escrevo o que sinto e enquanto você estiver em minha mente não paro de sentir, e escrever...
Mas minha vida não pode se resumir a sentir você, então guardo o meu sentir e tento me concentrar no meu dever, que por hora é trabalhar...chegou gente no balcão.

É isso.!

e eu ainda sinto tudo..
e sinto, ainda, saudades!


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Surto



Sabe aquele dia em você está saturado da vida?
Não aguenta fazer o que faz diariamente? 
Não suporta conversar os mesmos assuntos? 
Momentos em que até mesmo a voz e a entonação das pessoas geram uma irritação profunda?
A rotina fica insuportável. 
A mesmice te sufoca. 
A vontade é gritar e sumir. 
São dias em que até programas ou situações que sempre pareceram agradáveis e desejáveis se desenham de forma deformada. 
Viajar?? 
Af, que cansativo. 
Balada?? 
Hoje não.
Olhar o por do sol em algum lugar exótico???
Também Não.
Conversar com algum homem interessante em um passeio ilustrado e colorido?? Hoje não. Chato, chato, chato.
Não quero nada disso. 
Nesse exato momento o desejável se transformou em repugnante.
RAIVA.
Vontade de quebrar as paredes, de exterminar as pessoas, de correr pra longe, qualquer lugar em que não exista nada.
Preguiça?? 
Não é a exata definição dessa sensação que me invade de tempos em tempos. 
É mais uma aversão. 
Algo mais próximo da inquietude do que da desídia de agir. 
Um querer atuar desenfreadamente.
Ser uma musica ligada no volume máximo sem pudor com qualquer outro som que possa interromper ou modificar. 
Uma musica não. 
Existiriam muitos limites.
Essas frescuras de acordes e melodias. Que não se convergem em nada com o que estou tentando descrever. 
Um barulho. 
Barulho, único, singular, próprio, que destrói e corrói tudo.


..: INVASIVO.
DESAFETADO.
Gerador de uma vibração forte e intensa, que apesar de amenizável, jamais será ignorável.
Por mais que o mundo insista em me obrigar a usar protetores de ouvidos,  meu corpo e meu eu sabem que o som continua vibrando. 
Isso CHOCA. 
INCOMODA. 
DESPERTA.
Estão gritando. 
Não querer parar. 
Querem sair. 
Sair sem saber pra onde. 
Pra longe. 
Para qualquer lugar. 
Para lugar nenhum. 
XINGAM. 
ESPERNEIAM.
DESCABELAM.
Demônios e mais demônios. 
Não são pensamentos. 
São aspirações. 
Ou talvez não sejam aspirações. 
Talvez sejam contrastes.
Nenhuma droga poderia mudar essa onda. 
Nenhum chicote domaria. 
SELVAGEM.
EXPLOSIVA.
MANÍACA
Não posso dizer que essa seja uma sensação ruim. 
É BOA.
É diferente. 
Como tudo que é intenso. 
O desagradável é a impossibilidade de deixa-la fluir. 
Ou pior, de não poder fluir em seu exato ritmo.
A única ação passível de ser exercida com um grau de proximidade com essa vibe, é a redação desses devaneios dessa mente inquieta.
Mente que GRITA. 
E grita muito.
Me lembro das outras ocasiões em que esse desmedido invadiu o meu ser. 
Me lembro de estar presa na escola. 
Acometida por um absurdo sentimento de impotência. 
Olhando na janela com persianas e escutando o mundo acontecer sem que eu nele pudesse estar.
O trânsito, o som dos carros, a voz das pessoas na rua do outro lado do muro, refletiam mais o meu
interior do que aquela sala de aula parada e insuportável, que mais se assemelhava a uma prisão.
Eu imaginava o mundo dos adultos. 
E no meu sonhar, eu poderia obter liberdade quando atingisse a faculdade de ir e vir a qualquer momento. 
Mas minha inteligência e realismo, que automaticamente se contrapunham ao romantismo ilusório do lado direito do meu cérebro, já respondiam:
"Adultos só mudam de prisão."
 Se não fosse a sala de aula, seria um consultório, um escritório, uma mesa de banco, um laboratório. 
Em qualquer espaço ou tempo, eu seria prisioneira.
Enquanto aquele espírito fugitivo e desbravador estivesse encarnado em minha pele. 
E aqui estou. 
Adulta e presa em um escritório, atrás de um computador, ao lado de outros tolos que estão presos e nem sabem disso.
Talvez seja essa uma das finalidades desse “surto”, despertar o eu para realidade tal qual ela é.
Mostrar que a existência é sim um cárcere. 
E que embora confortante, vai acabar sufocando.
São dois os caminhos.
Ou você sai da cadeia e salva o prisioneiro que está lutando pela vida.
Ou mata o encarcerado e vive acomodado nesta sua cela existencial por toda a eternidade. 
Acompanhada pelo mais eterno e superficial dessentir. 
E me desculpem, mas matar o sentir é suicidar a alma.